Seu Zé herdou uma pequena porção de terra de seu tio, no povoado chamado Patagui. A princípio foi uma notícia e tanto para todos, porque Seu Zé já era pai de família e até então não tinha onde cair morto. Em posse da terra, que já tinha algumas plantações, ele continuou a cuidar da terra e passou a plantar mais. Milho, tomate, pimentão, coentro e alface, dentre outros vegetais, Seu Zé cultivava. Também tinha um galinheiro. A vida dele começou a melhorar. Outrora ele morava com os pais da sua esposa e era um inferno pra ele, pois todo dia era posto pra fora de casa discretamente e indiretamente. – Deus ajuda a quem cedo madruga. – dizia seu sogro, Seu Bé.
Com essas frases, Seu Zé, que até então não trabalhava nem madrugava, sentia-se um pouco desconfortável. Por sorte ou por destino, o felizardo herdou àquela porção de terra. Ele começou a se dedicar à lavoura, enquanto sua esposa tomava conta de seus filhos, que somavam ao todo cinco, sendo duas moças e três rapazes. Nesse povoado, as casinhas não eram tão distantes uma da outra, as ruas não eram calçadas e fazia um calor infernal quase todo ano, com exceção de algumas vezes. Quando São Pedro fazia uma faxina na sua casa lá no alto e a água descia e molhava aquela terra seca. Foi num período assim que tudo começou a dar certo pro Seu Zé. O que ele plantava, colhia. Aproveitava-se disso para se alimentar e também vender e distribuir por todo povoado por um preço em conta pra todos moradores. Foi assim que, devagarinho, Zé foi juntando uns trocados pra comprar uma casinha pra ele, a esposa e os filhos. Mesmo tudo aparentando estar bem, na verdade estava no quase. Porque pra alimentar cinco filhos, fora a si mesmo e a mulher, não era uma tarefa tão fácil tendo em vista as condições na qual viva o Seu Zé, que não tinha estudo, mal sabia ler e escrever, mas que tinha a astúcia de sobreviver. Tudo ficou pior quando o tempo de chuva passou e a velha seca voltou. Seu Zé em sua fé rezava pra tudo ficar bem, mas não ficava. A gente só se ajoelha pra rezar por dois motivos: agradecer ou pedir alguma coisa. Seu Zé agradecia e ao mesmo tempo pedia, era bem astuto. Mas a chuva não vinha. Enquanto isso, na cidade... Um outro Zé que havia sido eleito vereador e que havia prometido ajudar alguns lugares, algumas famílias, inclusive o povoado Patagui, estava viajando. Zé de Patagui havia se lembrado do sujeito que teve por lá a pedir voto, prometendo o céu e a terra. Ele então decidiu ir à procura do tal político na cidade. Pegou sua carroça e foi bater no lugar. Chegando lá, perguntou pelo vereador e ficou sabendo que ele não estava presente. Ficou inconformado e perguntou: – Ele foi resolver alguma coisa, foi?
A secretária lhe respondeu: – Não, senhor. Ele viajou com a família, mas volta em breve.
Seu Zé ficou enfurecido. Queria cobrar do tal vereador a promessa que ele havia feito antes de se eleger. – Minha fia, você sabe de algum lugar que esteja pegando gente pra trabalhá? – perguntou Seu Zé.
A moça lhe falou de um local de material de construção, que estava precisando de mais pessoas. Ele logo se interessou. Perguntou o endereço do lugar e foi pra lá. Ao chegar, perguntou sobre o trabalho e disse que estava precisando trabalhar, relatou um pouco da sua situação e o pessoal lhe ofereceu uma oportunidade, mas lhe informaram sobre o salário. Seu Zé estava passando por necessidade, sua plantação estava morrendo, ele tinha uma casa pra sustentar, fora sua esposa e seus filhos pra cuidar. Não importava se era pouco, ele estava procurando um refúgio, uma maneira de sobreviver. Então aceitou o trabalho e no mesmo dia, ele começou a trabalhar. Mais tarde, voltou pra casa e contou pra esposa sobre a novidade, falou também do salário que não era muito, mas que daria pra eles se manterem. – E o vereador, Zé? – questionou sua esposa, Clementina.
– Esse aí não estava lá, pois está viajando. – respondeu ele.
– Mas e os compromisso dele? Não vai honrar com suas palavra, não? – perguntou ela.
– Se a gente for esperá boa vontade de político, a gente passa fome. – disse Seu Zé, injuriado.
– É por isso que eu vô trabalhá, pra mostrá pros nossos filhos que se Deus deu duas perna pra eles, que eles corram atrás, ao invés de depender desses canalha! – acrescentou ele.
Na manhã seguinte, Seu Zé de Patagui se levantou cedinho, deu um cheiro na esposa, despediu-se de seus filhos e foi trabalhar. Alguns meses depois, a chuva voltou a cair, mas o vereador continuou sumido. Anos depois, Seu Zé ainda na mesma rotina, saindo do interior pra cidade rumo ao seu trabalho e deixando a esposa e os filhos responsáveis pela plantação e venda de ovos, vegetais e alimentos, tornou-se um empreendedor de sucesso. Mais pra frente, o vereador reapareceu à procura de votos, também ficou sabendo da ascensão de Seu Zé de Patagui e queria se apoiar no ombro do trabalhador pra conseguir mais votos e assim se reeleger. Seu Zé de Patagui olhou na cara do político e disse: – Tá veno isso aqui? – apontando pro seu negócio – Fui eu que tive que ralá junto a minha família pra conseguir. Eu fui a sua procura, pra cobrá de você a promessa que você fez, mas você estava onde? Viajando. Eu dei duro pra chegá onde cheguei e dou graças a Deus por ter chegado e sinto orgulho de mim mesmo não só por ter conseguido me estabelecer, mas por justamente ter conseguido sem precisá de ajuda de político, que só vem aqui de quatro em quatro anos, com o rabo entre as perna pra pedir voto, pois não conte comigo não pra sua reeleição, dê meia volta e se retire de minha casa! – completou Seu Zé.
Como os moradores estavam sabendo da visita do político ao povoado, curiosos e afoitos, estavam por perto e presenciaram toda àquela cena e ouviram as palavras do Seu Zé de Patagui, eles logo começaram a ovacioná-lo e a rir do vereador. O coitado ficou sem graça e foi se retirando cautelosamente, os moradores pegaram uns tomates e começaram a atirar no candidato, que saiu correndo sem olhar pra trás pra não levar um tomate na cara. E se serve de aprendizado, esse com certeza não vai voltar tão cedo ao lugar à procura de votos.
Autor: Ruan Vieira