quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

O mundo é uma grande loja


O mundo é uma grande loja

com pessoas o tempo todo fingindo

o tempo todo sorrindo

só pra lhe convencer

O mundo é uma grande loja

com pessoas se vendendo

com pessoas se perdendo

tentando se convencer

que estão bem na vida

que não estão perdidas

que estão em progresso

caminhando rumo ao sucesso


Mas depois vai ver...

Quanta da tristeza

quanta mediocridade

Quanto do cinismo

quanta da mentira

Quanta falsidade


Mas o mundo é uma grande loja

e você tem que fingir

O mundo é uma grande loja

você tem que mentir

tem que consumir

Você tem que vender

seja o seu tempo

seja sua alegria

seja seu pai, sua mãe, 

você ou sua tia

Você tem que vender 

Só tem que vender

seja o seu intelecto, 

seus sonhos ou sua ilusão

seja a sua aparência, 

o seu corpo ou até seu coração.


Ruan Vieira


terça-feira, 21 de dezembro de 2021

Seu Zé de Patagui

Seu Zé herdou uma pequena porção de terra de seu tio, no povoado chamado Patagui. A princípio foi uma notícia e tanto para todos, porque Seu Zé já era pai de família e até então não tinha onde cair morto. Em posse da terra, que já tinha algumas plantações, ele continuou a cuidar da terra e passou a plantar mais. Milho, tomate, pimentão, coentro e alface, dentre outros vegetais, Seu Zé cultivava. Também tinha um galinheiro. A vida dele começou a melhorar. Outrora ele morava com os pais da sua esposa e era um inferno pra ele, pois todo dia era posto pra fora de casa discretamente e indiretamente. – Deus ajuda a quem cedo madruga. – dizia seu sogro, Seu Bé. 

Com essas frases, Seu Zé, que até então não trabalhava nem madrugava, sentia-se um pouco desconfortável. Por sorte ou por destino, o felizardo herdou àquela porção de terra. Ele começou a se dedicar à lavoura, enquanto sua esposa tomava conta de seus filhos, que somavam ao todo cinco, sendo duas moças e três rapazes. Nesse povoado, as casinhas não eram tão distantes uma da outra, as ruas não eram calçadas e fazia um calor infernal quase todo ano, com exceção de algumas vezes. Quando São Pedro fazia uma faxina na sua casa lá no alto e a água descia e molhava aquela terra seca. Foi num período assim que tudo começou a dar certo pro Seu Zé. O que ele plantava, colhia. Aproveitava-se disso para se alimentar e também vender e distribuir por todo povoado por um preço em conta pra todos moradores. Foi assim que, devagarinho, Zé foi juntando uns trocados pra comprar uma casinha pra ele, a esposa e os filhos. Mesmo tudo aparentando estar bem, na verdade estava no quase. Porque pra alimentar cinco filhos, fora a si mesmo e a mulher, não era uma tarefa tão fácil tendo em vista as condições na qual viva o Seu Zé, que não tinha estudo, mal sabia ler e escrever, mas que tinha a astúcia de sobreviver. Tudo ficou pior quando o tempo de chuva passou e a velha seca voltou. Seu Zé em sua fé rezava pra tudo ficar bem, mas não ficava. A gente só se ajoelha pra rezar por dois motivos: agradecer ou pedir alguma coisa. Seu Zé agradecia e ao mesmo tempo pedia, era bem astuto. Mas a chuva não vinha. Enquanto isso, na cidade... Um outro Zé que havia sido eleito vereador e que havia prometido ajudar alguns lugares, algumas famílias, inclusive o povoado Patagui, estava viajando. Zé de Patagui havia se lembrado do sujeito que teve por lá a pedir voto, prometendo o céu e a terra. Ele então decidiu ir à procura do tal político na cidade. Pegou sua carroça e foi bater no lugar. Chegando lá, perguntou pelo vereador e ficou sabendo que ele não estava presente. Ficou inconformado e perguntou: – Ele foi resolver alguma coisa, foi? 

A secretária lhe respondeu: – Não, senhor. Ele viajou com a família, mas volta em breve. 

Seu Zé ficou enfurecido. Queria cobrar do tal vereador a promessa que ele havia feito antes de se eleger. – Minha fia, você sabe de algum lugar que esteja pegando gente pra trabalhá? – perguntou Seu Zé. 

A moça lhe falou de um local de material de construção, que estava precisando de mais pessoas. Ele logo se interessou. Perguntou o endereço do lugar e foi pra lá. Ao chegar, perguntou sobre o trabalho e disse que estava precisando trabalhar, relatou um pouco da sua situação e o pessoal lhe ofereceu uma oportunidade, mas lhe informaram sobre o salário. Seu Zé estava passando por necessidade, sua plantação estava morrendo, ele tinha uma casa pra sustentar, fora sua esposa e seus filhos pra cuidar. Não importava se era pouco, ele estava procurando um refúgio, uma maneira de sobreviver. Então aceitou o trabalho e no mesmo dia, ele começou a trabalhar. Mais tarde, voltou pra casa e contou pra esposa sobre a novidade, falou também do salário que não era muito, mas que daria pra eles se manterem. – E o vereador, Zé? – questionou sua esposa, Clementina.

– Esse aí não estava lá, pois está viajando. – respondeu ele.

– Mas e os compromisso dele? Não vai honrar com suas palavra, não? – perguntou ela. 

– Se a gente for esperá boa vontade de político, a gente passa fome. – disse Seu Zé, injuriado.

– É por isso que eu vô trabalhá, pra mostrá pros nossos filhos que se Deus deu duas perna pra eles, que eles corram atrás, ao invés de depender desses canalha! – acrescentou ele. 

Na manhã seguinte, Seu Zé de Patagui se levantou cedinho, deu um cheiro na esposa, despediu-se de seus filhos e foi trabalhar. Alguns meses depois, a chuva voltou a cair, mas o vereador continuou sumido. Anos depois, Seu Zé ainda na mesma rotina, saindo do interior pra cidade rumo ao seu trabalho e deixando a esposa e os filhos responsáveis pela plantação e venda de ovos, vegetais e alimentos, tornou-se um empreendedor de sucesso. Mais pra frente, o vereador reapareceu à procura de votos, também ficou sabendo da ascensão de Seu Zé de Patagui e queria se apoiar no ombro do trabalhador pra conseguir mais votos e assim se reeleger. Seu Zé de Patagui olhou na cara do político e disse: – Tá veno isso aqui? – apontando pro seu negócio – Fui eu que tive que ralá junto a minha família pra conseguir. Eu fui a sua procura, pra cobrá de você a promessa que você fez, mas você estava onde? Viajando. Eu dei duro pra chegá onde cheguei e dou graças a Deus por ter chegado e sinto orgulho de mim mesmo não só por ter conseguido me estabelecer, mas por justamente ter conseguido sem precisá de ajuda de político, que só vem aqui de quatro em quatro anos, com o rabo entre as perna pra pedir voto, pois não conte comigo não pra sua reeleição, dê meia volta e se retire de minha casa! – completou Seu Zé. 

Como os moradores estavam sabendo da visita do político ao povoado, curiosos e afoitos, estavam por perto e presenciaram toda àquela cena e ouviram as palavras do Seu Zé de Patagui, eles logo começaram a ovacioná-lo e a rir do vereador. O coitado ficou sem graça e foi se retirando cautelosamente, os moradores pegaram uns tomates e começaram a atirar no candidato, que saiu correndo sem olhar pra trás pra não levar um tomate na cara. E se serve de aprendizado, esse com certeza não vai voltar tão cedo ao lugar à procura de votos. 

Autor: Ruan Vieira

quinta-feira, 16 de dezembro de 2021

Princesinha do São Francisco


Princesinha do São Francisco

assim ficou conhecida 

Pela beleza do seu Rio 

jamais será esquecida.


Cidade do Bom Jesus 

da Catedral e da alegria 

Da fé que nos conduz

no caminho da harmonia.


Cidade do Velho Chico 

com Santo Antônio padroeiro 

Princesinha do São Francisco 

repleta de um povo guerreiro.


Linda cidade de Propriá 

Oh! estrela formosa

Quem por aqui passa, quer ficar

Nessa cidade maravilhosa.


Ruan Vieira

terça-feira, 7 de dezembro de 2021

A cidade solitária


À noite, não havia ninguém na rua, só a lua iluminando o céu. Não tinha ninguém na praça, não tinha ninguém no bar. As ruas estavam desertas e as casas com as luzes apagadas. Estava fazendo frio, toda noite fazia frio. Mas as pessoas não pareciam se importar com isso. Os moradores daquela cidade não se importavam com nada, eram solitários. A cidade era solitária. Ninguém saía, ninguém entrava e aqueles que residiam eram sozinhos. Cada morador ou moradora, morava só. De dia, eu via as pessoas passando umas pelas outras sem ao menos se cumprimentarem, não se olhavam e se elas se olhassem, olhavam-se estranhamente. As pessoas eram centradas em si mesmas, em seu mundo. Não tinham contato com ninguém, não havia amor nem felicidade, as pessoas eram tristes e naquela cidade só havia apenas a solidão. De manhã, as pessoas tomavam café sozinhas. Algumas saíam, outras ficavam em casa. Algumas iam ao supermercado, faziam compras e voltavam pra casa. Algumas compravam produtos para uma família inteira, porém não havia família naquela cidade. Ninguém lia livros, todos tinham uma máquina. As pessoas passavam um bom tempo em suas casas mexendo na máquina. – Com quem conversavam? Por que nunca saíram da cidade ou receberam alguma visita? – perguntava a mim mesmo. 
Meio-dia, as pessoas almoçavam sozinhas, tomavam banho sozinhas, viviam sozinhas em casa. A maioria, geralmente, trancada. Chegava a tarde, a bela imagem do sol se pondo era uma beleza. Porém, as pessoas não olhavam o pôr do sol, elas nem olhavam para o céu. Não pareciam ouvir os pássaros, não pareciam sentir o vento soprar e tocar sua pele, não pareciam sentir calor ou frio. Nas noites, ninguém olhava a lua, ninguém admirava as estrelas. As pessoas pareciam humanas, porém eu duvidava se realmente eram. A noite chegava, ninguém na rua. O frio tomava o ambiente, mas ninguém saía de casa ou recebia alguém para passar à noite, ninguém se esquentava com ninguém, tudo era frio. As pessoas eram frias, não havia sentimento naquela cidade, não havia amor. A rotina dos moradores era de casa para o trabalho, do trabalho para a casa. Isso para quem trabalhava. Ninguém saía com outro alguém, estavam sempre sós. Não haviam casais. Ninguém presenteava a ninguém, não havia sequer um toque, não havia sequer um beijo nem abraço, não havia contato. Já fazia tempo. As pessoas me pareciam humanas, mas não sei se realmente eram. Eu, no meio de toda aquela solidão, também me sentia só. Era inevitável. Porém, parecia que eu era o único a me importar com aquela vida, com aquele presente, com toda aquela solidão. Cada pessoa morava sozinha em sua casa. Eu já não aguentava mais. Mas as pessoas não sentiam nada. – Em que mundo elas vivem? – perguntava a mim mesmo. 
Eu já estava cheio de toda aquela cidade. Eu olhava pro céu e admirava a sua magnitude, olhava o pôr do sol, eu ouvia o canto dos pássaros, fitava-os voando, eu adorava a beleza da natureza, da vida. Porém, eu fazia tudo isso sozinho. Eu já estava cansado de toda aquela solidão. Eu estava me sentindo morto. Era assim que eu via as pessoas daquela cidade, mortas! Eu não sei o que havia acontecido naquela cidade, mas as pessoas eram tristes e solitárias. Elas não viviam, existiam! Não apreciavam a vida, não contemplavam o céu azul, o pôr do sol, elas não se davam conta de que estavam vivas e de quão bela é a vida. Elas eram tão frias, estavam mortas! Eu me perguntava se elas também se davam conta disso.

Autor: Ruan Vieira

sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

Elogio à mulher


Mulher é pura arte,

É uma flor flébil

que nos encanta e nos espinha

Uma bela rosa vermelha,

A mulher nasceu pra ser amada

e não para ficar sozinha

Tenho apreço por seu lindo sorriso

e anseio por seu tato sutil

Por teu talhe esbelto, delicado

por tua voz doce e gentil

Mulher inspira e enlouquece

Admiro as loucas, que vivem

e se entregam sem medo

E não se importam com o padrão do mundo

Não entende a mulher

quem não a conhece

Pois a mulher é uma ilha

onde se encontram os tesouros mais profundos

Na hora exata, no exato momento

Elas hão de te mostrar

Detalhes, manias e desejos

Que irão te enfeitiçar

Mulher é um ser divino

Que vale a pena amar

É o melhor dos “pecados” da vida

Que vale a pena pecar.


Ruan Vieira

quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Dê flores aos vivos

Dê flores aos vivos! Perder pessoas em vida, resulta em ressentimento e mágoa, porém perder pessoas para a morte, resulta em tristeza e arrependimento. Certas emoções nos levam a destratar quem, muitas das vezes, esteve conosco e se preocupou com nosso bem-estar. O orgulho afasta as pessoas, muitos podem até pensar consigo mesmos de que é uma “questão de honra”, mas não é. O orgulho é uma característica humana que mostra o quão imaturos ainda somos. A raiva nos cega e nos leva a cometer erros, machucamos pessoas. Certos defeitos nos caracterizam mais do que as qualidades e isso está errado. É preciso encarar seus defeitos e combatê-los, tentar controlá-los. O grande problema é que as pessoas se acostumaram a mesmice e sentem orgulho de serem o que são, sentem orgulho de seus próprios defeitos. Não confie em pessoas que se orgulham de serem erradas. Os defeitos definem muitas pessoas e elas não são confiáveis. Muitas delas, mais machucam do que são machucadas, mas o ato de ferir ao outro, seja com palavras ou ações, mostra que precisamos de uma melhora. O problema é que aqueles que buscam melhorar são levados a sair um pouco do caminho por aqueles que não buscam. Emoções! Pessoas feridas tendem a machucar e assim caminham as pessoas sobre a terra. Isso nunca acaba e se transforma em um ciclo, uma disputa medíocre sobre “quem fere mais”. É incrível a força de vontade e disposição de muitas pessoas para gerar conflitos, brigarem, ofenderem umas as outras, mas para dizerem “Eu te amo” sentem uma dificuldade, talvez isso se dê porque no fundo elas têm consciência de que não estão realmente amando ou que pelo menos não estão sendo sinceras para com o outro.

“O homem é algo que deve ser superado.”

– Nietzsche

Tudo que há de mais desprezível no ser humano, ele deve combater. O primeiro passo é a aceitação, o segundo é combater, enfrentar a si mesmo, olhar para dentro de si e buscar por seus próprios defeitos. Aquele que busca melhorar, tende a querer que todos a sua volta também melhorem. Talvez isso seja mal visto por alguns olhos, mas se todos buscassem uma melhora, não haveria tantos conflitos. O intuito não é atingir a perfeição, mas combater em si o que há de imperfeito. Muitos seres humanos se utilizam da desculpa de que são falhos, fomos ensinados a achar normal sermos iguais uns aos outros nos hábitos, pensamentos e até nas atitudes. “O ser humano é falho”, essa frase é tão cínica quanto quem a diz. Reconheça que é falho, mas busque melhorar, acertar. As pessoas estão acostumadas a cometerem erros e se conformaram em sempre cometê-los, mas o caminho não é por aí. Aceitar que é falho é o primeiro passo, mas buscar por uma mudança é o que vem depois. Errar é ordinário, mas buscar acertar, agir diferente é o que realmente qualifica um ser humano melhor. Mas quem está disposto a enfrentar a si mesmo? Quem está disposto a combater o que há de mais desprezível em si mesmo? A mudança interna é a chave para a mudança externa, você reflete aquilo que traz consigo em sua mente, em seu interno. Conflitos externos sempre acontecem, porque as pessoas estão em conflitos internos. Pessoas perdem pessoas em vida, porque estão perdidas em si mesmas. A morte, quando chega, traz consigo um martelo que bate na cabeça daqueles que estão destruindo tudo em sua própria vida. Quando perdemos quem amamos nos damos conta tardiamente de como era bom ter aquela pessoa ao nosso lado, percebemos que não fomos sinceros com o outro, que não dissemos tudo que deveríamos dizer, que não amamos de verdade. A morte nos traz uma reflexão. Faz a gente acordar, despertar de quimeras. Mas por que as pessoas ainda insistem em serem o que são se o que são não é o que deveriam ser? Até quando as pessoas sentirão prazer em ferir umas as outras? Até quando irão sustentar a mentira de que não precisam mudar, melhorar? Até quando pessoas irão perder pessoas, por orgulho, raiva, rancor, ressentimento, desamor, ciúme, falta de diálogo, falta de comunicação? Levar flores aos mortos pode até confortar muitos corações, mas dá flores aos vivos vale bem mais.

Por Ruan Vieira

El hilo rojo del destino (O fio vermelho do destino)

Hay una leyenda oriental que cuenta que las personas destinadas a conocerse tienen un hilo rojo atado en sus dedos que les une el uno al otr...